Um estudo acerca de aspectos contemporâneos
da linguagem, e a sensibilização do movimento
em busca de um pulsar criativo próprio.
Projeto de graduação em Design.
Luiz Gustavo Ferreira Zanotello.
Universidade Estadual Paulista.
Bauru, Brasil. Junho/2012.
Como tocar o próprio movimento do virtual?
Como aproximar o incorpóreo do tangível?
Como vislumbrar a liquidez do real e atual?
Nama consiste numa experiência compositiva onde age-se
diretamente na percepção sinestésica do movimento. Atua
na intersecção entre design, arte e tecnologia, buscando meios
de sensibilizar uma virtualidade imanente afim de produzir
afetos
positivos ao pulsar criativo de uma pessoa. Vazia de
representações
objetivas, procura através de uma experiência
líquida trazer
à superfície os próprios sentimentos do interator.
“Um fragmento de vida, reminiscências de lugares,
pessoas, tempo passado e presente, palavras trocadas,
uma atmosfera de cheiros, cores, sabores, sons: um
tecido
frágil que tende a se desfazer se chegarmos
perto
demais
e cuja consistência é a fluidez.”1
Atuando através de aspectos físico-perceptivos do movimento de
um tecido, interage-se através de desejos e temporalidades numa teia
orgânica de certa imprevisibilidade composicional, gerando imagens
e sons em retorno. Com a interação são trabalhadas dualidades entre
velocidade e lentidão, liquidez e solidez, caos e ordem, extensibilidade
e intensividade, afim de incitar um entendimento próprio acerca
da fluidez que constitui a própria subjetividade.
Constroi-se assim um ambiente lúdico de descoberta de significações,
onde seu output audiovisual tece poeticamente uma comunicação
relacional tanto ao movimento do interator quanto às suas próprias
linhas já mestiçadas por um sistema celular, tornando visível
a própria multiplicidade. Hibridiza-se o espaço, de modo que
o próprio virtual parece ganhar o tempo do atual inserido-se no vão
entre o tangível e o intangível, trazendo novos modos do sentir à tona.
Através da pesquisa em teorias contemporâneas do virtual, criou-se
um design de relações como mapa para experimentação posterior
em linguagens contemporâneas digitais. O relatório de pesquisa
contém em forma de ensaios algumas das descobertas tecidas pelo
processo de abertura inicial do projeto (ocorrida via o blog "Devir").
Inicia-se pela definição de um possível "esquizo-projeto", um modo
de design virtual desejante, passando num segundo ensaio aos
vislumbres vindos da busca por compreender a contemporaneidade
líquida. Num terceiro, tece-se um modo de projetar tão livre quanto
o brincar dotando-o de uma poética do fazer; ao passo que num último
ensaio há a concepção de uma forma de projeto volátil e relacional
através de um silêncio à representação.
Junto aos ensaios há o relato de todo o processo prático de concepção
e desenvolvimento em diversas áreas de linguagens contemporâneas:
design de códigos computacionais, design de interfaces tangíveis,
design de sistemas orgânicos digitais e design generativo audiovisual.
Em última instância, descreve-se os respingos e novos devires abertos
pelo processo de design deste projeto.
“Dobrar-desdobrar já não significa simplesmente tender-
distender, contrair-dilatar, mas envolver-desenvolver,
involuir-evoluir”.2
(1) - Anne Cauquelin, “Freqüentar os Incorporais”.
(2) - Gilles Deleuze, “A Dobra”.
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Visualização online via Issuu.






Dimensão tangível de Nama, o Instrumento é um tecido-interface.
Um open-hardware que possui uso e finalidade aberta, capaz de ser
dobrado, torcido, apertado e manipulado livremente em diversos
contextos para gerar dados digitais de seu movimento em tempo real.
Baseado no conceito de objeto relacional de Lygia Clark, a interface
tem como suporte um tecido por suas particularidades físicas que,
através de sua interação, podem trazer aos sentidos características
correlatas à virtualdade como fluidez, maleabilidade e mobilidade;
provocando assim, junto a seu feedback, um entendimento não-verbal
e sinestésico da liquidez virtual.
Como meio para sua construção, o blog "Nama Instrument" foi suporte
tanto para pesquisa quanto para documentação do desenvolvimento,
incluindo ainda dois vídeos com protótipos preliminares (um e dois).
Sua atual configuração possui um Lilypad Arduino acoplado
a 5 Lilypad Accelerometers, um módulo Xbee, e uma bateria LiPo
costurados manualmente com tecido condutor. Os dados são coletados
pelos acelerômetros, que através do Arduino/Xbee são enviados via
rádio a um computador, onde serão reprocessados em algum tipo
de output. O projeto possui ainda um software customizável criado especialmente para receber os dados vindos da interface.
Criado originalmente para a instalação interativa de Nama,
a arquitetura do Instrumento pode ser facilmente adaptada para
novos usos e contextos como em roupas, interfaces vestíveis, ou novas
mídias e suportes interativos. No intuito de facilitar esta adaptação,
um documento com as especificações técnicas e passo-a-passo (DIY)
de construção do Instrumento encontra-se na seção Opensource,
junto a seus códigos abertos e livres para uso e modificação.










O esquema acima demonstra de modo técnico o funcionamento geral
da instalação interativa organizado pelo fluxo de dados. Três sistemas
digitais generativos compõem a instalação interativa: uma teia digital
orgânica, um sistema visual e um sistema sonoro. Em síntese, o primeiro
inclui os dados advindos da interface tangível num sistema celular,
modificando sua estrutura pouco a pouco com a interação de múltiplos
interatores. Os outros dois compõem o sistema de feedback audiovisual,
respondendo às qualidades desenvolvidas pelo sistema celular orgânico.
Arduino Processing Suppercollider 
Emergência, auto-organização e hibridização são os conceitos
norteadores deste sistema. Consiste num sistema autômato celular,
onde o input de dados da movimentação do tecido resulta num
sistema autônomo possuidor de certo grau de inteligência.
Sua função é possibilitar um feedback orgânico à toda experiência interativa, como um organismo vivo que lentamente se adapta
ao interator da interface buscando novos modos de interagir.
Constantemente os dados advindos da interface alteram as regras
de 5 tipos de células no sistema. Em tempo real, os padrões gerados
por estas células são mapeados diretamente aos sistemas de feedback.
Cheque o vídeo do protótipo 2 para visualizar o sistema em ação.
Sistema generativo que exibe imagens e sons reagindo ao movimento
da interface com base na teia digital mestiçada em constante criação.
Sua composição procura afetar o interator através de intensidades em
movimento, de modo a manter o silêncio à representação ativo, dando
espaço a um universo relacional imanente afim de que as significações
se mantenham abertas ao ponto de despertar novos afetos e sentires.
É característica da imagem a visualização da multiplicidade em fluxo
constituída na instalação e como esta reage à interação. Atua de forma
imersiva, exibindo três planos consecutivos relativos à diferentes
visualizações de uma mesma multiplicidade, afim de que sejam vistos
apenas os movimentos e relações que se formam através da interação.
É característica do som possibilitar a imersão do interator em novo
espaço, expandindo sua percepção acerca de seu campo afetante.
Três classes de som coexistem numa mesma paisagem: uma
primeira
tornando audível o próprio movimento ruidoso,
uma segunda com
afetos harmônicos que saltam da forma
atual do tecido,
e uma terceira como teia harmônica ao fundo.